Como uma onda no mar
A cada dia que passa mais a vida me impressiona. Impressiona pela complexidade e pela simplicidade também. Afinal, nós humanos, ditos racionais, é que tornamos tudo complexo e complicado.
Veja só a simplicidade de pessoas que vivem na e da terra. Elas têm rotinas e não reclamam disso. Elas têm alegria de vestir a roupa de “ver Deus” nos feriados e dias santos, e é somente uma, a mesma sempre, e não reclamam disso. Elas gostam de estarem limpas mas, não se ligam exatamente nas aparências e é comum percebermos casamentos e namoros entre brancos e negros; gordos e magros; mais velhos com mais novos... e por aí vai. Para essas pessoas simples vale apenas o querer e o gostar.
Tenho um amigo que sempre repete que a simplicidade é o último degrau a ser subido, para se atingir a sabedoria. Ah! Quão difícil é se chegar a essa tal de sabedoria. Ela nos parece tão perto em umas horas e tão longe em outras tantas.
Conheci uma senhora que reza as pessoas com folhas de arruda, que diz “a senhora quer entender tudo, por isso fica ‘compricada’ com sua ‘conciença’”. E o pior é que é. Balbina tem razão. A gente sempre procura explicar tudo, racionalizar, querer mudar o curso das coisas, enfim, a gente sempre questiona as coisas simples. Não as aceita como são, só porque são simples.
É assim que as coisas acontecem nas metrópoles. Complicadas. Tem todo um manual de conduta a ser cumprido para se conseguir viver ou, melhor, sobreviver. Tem um forma de vestir, de falar, de paquerar, de seduzir, de andar, de se comportar. Tem tudo no manual. E nós temos que optar: ou viver como robozinho obediente, que segue o manual, ou ser rebelde e transgredir.
Só que em ambas as opções citadas, pagamos um preço caro. Quando optamos por seguir o manual, acabamos nos descaracterizando. Perdemos a liberdade, a privacidade, a naturalidade e nos tornamos estatística da vida urbana.
Quando rompemos a barreira e resolvemos levar a vida em conformidade com o que pensamos, assumimos o ônus de sermos olhados de banda, de soslaio, de sermos apontados como alienados, à margem mesmo, marginais urbanos; isso quando a qualificação não é a de doidinho ou, até, louco mesmo. Ah! A vida. Tão simples e tão complexa.
Nessa hora ou nesse ponto da reflexão me remeto a Lulu Santos, com a sua sábia poesia... como uma onda no mar. Sempre linda, rebelde, energética, mas sempre diferente à cada vez que beija a areia e mantém o pacto da imortalidade.
Ah! Humanos. Todos vivendo a beleza de poder refletir para muitas vezes não mudar nada, mas umas poucas vezes podendo mudar o rumo da história com suas inovações e invencionices.
Ah! Balbina. Com seu raminho de arruda e sua conversa mansa, própria de quem atingiu a sabedoria, que diz: a senhora é moça tão estudada e bonita, ta esperando o que pra ser feliz?
A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá